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22 de agosto de 2014

Vaishnavismo Engajado: os devotos de Krishna estão preocupados em tornar o mundo um lugar melhor?

Escrito por Steven J. Rosen (Satyaraja Dāsa)


"Filosofia tem pouco ou nenhum significado, a menos que produza um bom caráter." Radhanath Swami

A forma como nós nos comportamos no mundo material é, em certo grau, um reflexo de como nós nos identificamos enquanto seres vivos. Se pensarmos em nós mesmos como corpos materiais, como a maioria das pessoas faz, então nosso foco primário será o mundo material e as diversas interações que aparentemente melhoram nossa estadia aqui. Nós nos tornamos absortos em apetites corpóreos, levando uma boa vida, criando família, e assim por diante.
Se, no entanto, nós desenvolvermos um sentido de que há algo mais na vida - que nós somos seres espirituais vivendo em um corpo material - então nosso foco naturalmente mudará para uma realidade mais interna, e para nossa verdadeira vida como almas espirituais.
Não se trata, obviamente, da exclusão das preocupações materiais, mas sim uma necessidade subjacente e uma prioridade que nutre tais questões.
Há uma arte para fazer isso - usar o mundo material de forma espiritual. Em Sânscrito, ela é chamada yukta-vairagya, e foi desenvolvida como uma ciência pelos seguidores de Sri Chaitanya (1486-1533). Sob a liderança de Rupa Goswami, Seu principal discípulo, os Chaitanya Vaishnavas de antigamente, representados pelo movimento Hare Krishna hoje, formularam uma metodologia detalhada para agir como as almas espirituais que nós somos, para estar no mundo, mas não ser do mundo.
Consequentemente, os devotos, em geral, não são comprometidos com qualquer paradigma mundano social, econômico ou político. Nosso compromisso é com Bhakti, ou serviço devocional ao Supremo, com ênfase, novamente, no lado espiritual das coisas. Isto não quer dizer que nós somos anarquistas ou antinomianos de qualquer tipo. Nós assumimos nossas responsabilidades pessoais ou civis para manter a ordem no mundo material, sejam sociais, econômicas ou políticas. Os textos em sânscrito chamam essa responsabilidade de loka-samgraha, ou "a manutenção do mundo material". Isso é efetuado de um modo individual, enquanto os devotos avaliam os respectivos méritos ou deméritos de determinado sistema mundano, e decidem se devem participar dele, influenciá-lo, e assim por diante, conforme nossa consciência e julgamento prático nos movam.
Apesar de nossa tradição Gaudiya Vaishnava, habilmente representada no mundo moderno por Srila A. C. Bhaktivedanta Prabhupada (1896 - 1977), focar no trabalho pelo bem-estar espiritual - ou seja, ajudando outros a avançarem em direção a Krishna e o mundo espiritual - e apesar de muitas citações mostrando que esse foco eclipsaria qualquer orientação à caridade mundana, este artigo tentará mostrar outro lado da tradição, que às vezes é negligenciado ou omitido.
De fato, os textos dos grandes acharyas enfatizam fortemente a importância de ajudar as pessoas espiritualmente, quase até o ponto de excluir o trabalho para o bem-estar material de seus ensinamentos. Há uma razão para isso, na mesma linha do "Dê ao homem um peixe, e alimente-o por um dia; ensine-o a pescar, e alimente-o pela vida toda" (Lao Tzu).
Isso não é para encorajar a pesca, obviamente. Mas sim, para destacar o princípio de soluções de longo termo como superiores a soluções de curto prazo.
De fato, soluções materiais são sempre de curto prazo, pois dizem respeito ao corpo perecível. Todo valor ou atividade social que foca no corpo cai no esquecimento assim que o corpo é destruído. E o corpo será destruído. É apenas uma questão de tempo. Os devotos, por outro lado, são ensinados a olhar a longo prazo, tendendo às necessidades da alma. É essa atividade social que persiste, pois a alma é eterna.
Então, os Vaishnavas tendem a ter um coração generoso, sentindo o sofrimento de outras entidades vivas e, enquanto sua preocupação primária é pelo bem-estar espiritual de todos, eles não gostam de ver ninguém sentindo dor ou perda, em qualquer sentido da palavra.
Recentemente, o Budismo se tornou popular por causa do engajamento de seus aderentes com o mundo material. Budistas, sem dúvida, procuram meditar e desenvolver sua vida contemplativa interior - essa é a verdadeira questão da tradição budista, mas eles também reconhecem a importância do aqui e agora, de ajudar as pessoas e trabalhar para fazer o mundo um lugar melhor. Isso é chamado "Budismo Engajado."
Vaishnavas também, como já mencionamos, estão preocupados com o mundo material. Assim como os Buddhistas, nós reconhecemos que o mundo material é cheio de sofrimento, e que sempre será um lugar onde nascimento, morte, velhice e doença são proeminentes. Mas os Vaishnavas "sentem o sofrimento dos outros", e assim, da mesma forma que os Buddhistas, eles trabalham duro para aliviar esse sofrimento, mesmo que eles necessariamente o façam com um componente espiritual predominante.
Por exemplo, Vaishnavas servirão comida aos famintos, mas eles vão garantir que essa comida é prasadam, oferecida a Krishna. Isso espiritualiza o ato de caridade, permitindo que o beneficiário não apenas receba a nutrição que ele ou ela necessita, mas também avance no caminho espiritual. 
Assim, o grande mestre da consciência de Krishna, Bhaktivinoda Thakur (1838-1914), escreveu incessantemente sobre a necessidade de um "Vaishnavismo Engajado", usando por exemplo a seguinte frase:

"Aqueles que pensam que devoção a Deus e gentileza com as jivas (almas) são mutuamente diferentes, e agem de acordo com tal crença, tais pessoas não serão capazes de seguir a cultura devocional. Suas ações são apenas um simulacro de devoção. Então, todos os tipos de beneficência a outros, como gentileza, amizade, perdão, caridade, respeito e assim por diante, são incluídos em Bhakti. Entre esses, de acordo com as triplas categorias dos beneficiários, a saber, alto, médio e baixo. As ações de respeito, amizade e gentileza são a própria forma do amor e a porção característica do Bhakti: caridade de medicamentos, roupas, comida, água, etc., abrigo durante adversidades, ensino de instrução acadêmica e espiritual, etc., são as atividades incluídas na cultura devocional. [1]

E novamente Bhaktivinoda escreveu:

Deve-se ser misericordioso e não causar ansiedade a qualquer entidade viva. O coração deve sempre ser preenchido de compaixão pelos outros. Exibir misericórdia a todas as entidades vivas é um dos braços do serviço devocional. [2]

O mesmo humor foi expresso por Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakur (1874-1937), o ilustre filho de Bhaktivinoda e mestre espiritual de Srila Prabhupada:

[O devoto] não sente apatia ou apego à moralidade mundana. Por outro lado, a moralidade espera como uma serva para apoiar a moralidade espiritual no serviço ao Senhor do Amor Transcendental. Ao mesmo tempo, nós devemos entender que o caráter de alguém que cultiva amor espiritual nunca é desprovido de moralidade. Alguém que seja hostil à moralidade ou que saia do caminho da moralidade nunca pode ser um homem espiritual. No resplandecente cerne dos ensinamentos do ideal de Shri Chaitanya Deva - devassidão não é devoção. A evidência é abundante quando refletimos sobre o caráter de Sri Chaitanya Deva e seus seguidores. [3]

O próprio Prabhupada indica que ética e moral - em outras palavras, o cultivo de um senso de bondade no mundo material - é um precursor do Bhakti puro e pode ajudar na jornada espiritual do indivíduo:

Sim, ética é o princípio básico da purificação. A menos que alguém... Saiba o que é moral e o que é imoral... Claro, neste mundo material tudo é imoral, mas ainda assim nós temos de distinguir o que é bom e mau. Isso é chamado princípio regulativo. Simplesmente por seguir o princípio regulativo, se ele não atinge o objetivo último da vida espiritual, então, isso também não é o desejado. O real propósito é chegar à plataforma espiritual e se tornar livre da influência dessas leis da natureza material.
Então, paixão é a força de ligação na natureza material. Assim como no presídio, os prisioneiros são mantidos às vezes acorrentados por algemas de ferro e outros métodos, a natureza material tem as correntes ou algemas da vida sexual, paixão, rajas e tamah. Kama esa krodha esa rajo-guna-samudbhavah. Rajah-gunah significa o modo da paixão. Assim, o modo da paixão significa kama, desejos luxuriosos, e krodha. Quando os desejos luxuriosos não são satisfeitos, a pessoa fica irada. Mas essas coisas são os meios de escravidão nesse mundo material.
Em outro texto é dito que tada rajas-tamo-bhavah kama-lobhadayas ca ye. Quando alguém está afligido pelos modos da natureza material, ou seja, rajo-guna e tamo-guna, então se torna ganancioso e luxurioso. Então, a ética requer sair das garras da ganância e dos desejos luxuriosos. Então se chega à plataforma da bondade, que irá lhe ajudar a atingir a plataforma da vida espiritual. [4]

Deve ser dito que algumas das citações acima tratam das relações pessoais e ética como em oposição ao trabalho de beneficência social. Mas a inter-relação não deve ser negligenciada, e a essência é a mesma. Nós estamos falando sobre um coração compassivo, um indivíduo espiritualmente evoluído que não pode suportar o sofrimento dos outros. Em outras palavras, um devoto quer ver as pessoas felizes, materialmente e também espiritualmente.
Acadêmicos de fora do movimento, também, reconhecem que os devotos são naturalmente pessoas boas, buscando ajudar o mundo e todos que se encontram nele. Estas são as palavras de Joseph T. O'Connell, Professor Emérito de Estudos de Bengalí na Universidade de Toronto:

Entre as virtudes mais destacadas na formação do caráter devocional ideal estão a humildade, prestatividade, não-violência, limitação da indulgência sensual, trazer uma atitude acomodativa a situações de potencial conflito, relatividade papéis sociais mundanos como construções de maya, "ilusão", o que aqui não quer dizer "não-existência", como geralmente ocorre no uso indiano, mas sim engano, sedução, ou inautenticidade. De todas as virtudes, humildade, não-violência e controle dos apetites sensuais são fundamentais para a formação da moralidade pessoal de acordo com a ética Chaitanya Vaishnava.
Outras virtudes podem ser vistas como reforçando essas. Por exemplo, os relatos de conversões Chaitanya Vaishnavas geralmente mostram a transformação de um pecador irremediável que é arrogante, violento, viciado em sexo, carne e álcool, em um devoto que se afasta de tudo isso. A reputação tradicional de muitos Vaishnavas pela abstenção de álcool e carne atesta a efetividade geral dessas proibições particulares e mão necessita ser elaborada aqui. A importância da regulação sexual típica dos Chaitanya Vaishnavas ortodoxos, celibatários e casados [é outra prova].

Além disso, para os devotos, há uma clara diferenciação entre áreas de preocupação explicitamente espirituais e aquelas que são mais profanas. Os poucos avais explícitos de comportamento secular encontrados em textos Vaishnavas são, geralmente, recomendando, por exemplo, que os reis governem de forma justa e sensível; que os ricos ajudem os pobres e piedosos; e que as pessoas comuns paguem seus impostos e desenvolvam relações pacíficas com os outros. Estes mesmos textos promovem obrigatoriamente apenas a propagação de Krishna-Bhakti, pois todas as considerações mundanas, segundo eles dizem, são servidas por esse único princípio fundamental.
As escrituras vaishnavas oferecem várias analogias para tornar esse ponto abundantemente claro. Por exemplo, se explica que, por molhar a raiz de uma árvore, automaticamente se distribui água para suas folhas e ramos. A mensagem deveria ser clara: por agir em Consciência de Krishna, pode-se prestar o maior serviço a todos - ou seja, a si mesmo, à família, à sociedade, ao país, à humanidade, e assim por diante, pois todos são como ramos, partindo da raiz, o Senhor Sri Krishna. Assim, se Krishna está satisfeito com as ações de alguém, então todo mundo estará satisfeito também. É por isso que, para um Vaishnava, Krishna-Bhakti é central, e a moral e ética mundanas são consideradas secundárias.
Preocupações secundárias, no entanto, são também preocupações, e Vaishnavas maduros são escrupulosamente cientes disso. Por essa razão, ISKCON iniciou projetos que podem parecer classificáveis como "trabalho de beneficência mundano", mas um olhar atento sob a superfície revela esse trabalho como muito mais que isso.
Por exemplo, nós já mencionamos a distribuição de prasadam. Mas nós não mencionamos a extensão e amplitude dessa iniciativa em particular. Uma significativa parte da distribuição de prasadam é devida ao programa "Food for Life", um empreendimento que alimenta e educa literalmente milhões de pessoas necessitadas ao redor do mundo, principalmente em países de Terceiro Mundo. O programa Hare Krishna Food for Life é a maior organização vegetariana, sem fins lucrativos, de ajuda alimentar do mundo, com projetos em mais de 60 países. Os voluntários servem mais de 1.500.000 refeições gratuitas diariamente em uma variedade de formas, incluindo vans servindo comida aos moradores de rua mas maiores cidades do mundo; almoço para mais de 700.000 crianças pobres na Índia; e também em resposta a grandes desastres naturais, como no maremoto de 2004 do Oceano Índico.
Isso é tudo comida sagrada ("transcendentalizada" com mantras), oferecendo benefício espiritual a todos que participam.
Ou consideremos a Gopal's Garden School em Mumbai. Em 2001, a escola foi iniciada em um apartamento alugado com apenas alguns alunos de berçário. Hoje, os devotos têm seu próprio prédio. Há 28 professores e 170 crianças freqüentando a Gopal's Garden School, que oferece aulas desde o berçário até o diploma de ensino médio. Os estudantes recebem ambas, a educação acadêmica e espiritual, toda centrada na devoção a Krishna.
O Hospital Bhaktivedanta é outro projeto Vaishnava que permite que os devotos colaborem com a redução das misérias do mundo material enquanto promovem Krishna-Bhakti. O hospital tem mais de trezentos médicos residentes, metade deles devotos iniciados na ISKCON. A cura para todos é feita em Seu nome. 
Tais projetos mostram que preocupações primárias e secundárias podem caminhar lado a lado. Pode-se educar as pessoas espiritualmente enquanto se ajuda-as materialmente, ou compartilhar Consciência de Krishna praticando gentileza. A tradição Vaishnava oferece ao mundo várias "tecnologias espirituais" pelas quais se pode fazer exatamente isso: ajudar o mundo e ajudar os outros a se moverem pelo mundo, viver uma vida feliz e pacífica e voltar para casa, voltar ao Supremo.

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Notas finais

1. Tattva Viveka-Tattva Sutra-Amnaya Sutra: A Comprehensive Exposition of the Spiritual Reality by Bhaktivinoda Thakur (Madras: Sree Gaudiya Math, no date), English translation by Narasimha Brahmacari, Tattva Sutra portion, sutra 35, pp. 185-186.
2. Veja Bhaktivinoda Thakur, Bhaktyaloka.
3. De uma conversa entre Bhaktisiddhanta Saraswati Thakur e Prof. Albert E. Suthers, ocorrida em janeiro de 1929 em Krishnanagar.
4. Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, Espiritualismo Dialético: Uma Visão  Védica da Filosofia Ocidental (Prabhupada Books, 1985), conversa sobre Sócrates.
5. Joseph T. O’Connell, “Chaitanya Vaishnava Devotion (bhakti) and Ethics as Socially Integrative in Sultanate Bengal,” in Bangladesh e-Journal of Sociology, Vol, 8, No. 1 (January 2011), pp. 51-63. Available at www.bangladeshsociology.org/BEJS%208.1%20Final.pdf.
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Bio:

Steven J. Rosen (Satyaraja Dasa) é um discípulo de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada e autor de cerca de 30 livros nas áreas de filosofia, religião, espiritualidade e música. Ele é editor associado da revista da ISKCON "De Volta ao Supremo, assim como o editor fundador do Jornal de Estudos Vaishnavas. 

19 de junho de 2014

Quando Opostos se Atraem: Alguns Pensamentos em Bhakti e Yoga

ESCRITO POR STEVEN J. ROSEN (SATYARAJA DASA)





Assim como se geralmente se compreende, yoga se refere a “união”. Alguns interpretam isto em termos de corpo e mente, esperando se tornarem pessoas plenamente integradas como resultado da prática de yoga; outros veem como um fenômeno mais sutil, um tipo de união com o eu interior que permite a integração de corpo, mente e alma em uma consciência espiritual superior. Em última análise, o conceito de yoga foca na união com Deus, apesar de que o que se quer dizer exatamente com “Deus” estar aberto a discussão.

Bhakti também se refere a união, mas se trata de unir-se com Deus por meio do amor. Em outras palavras, para existir bhakti, deve haver “dois”, o amante e o amado. Este senso de dualismo é frequentemente esquecido no mundo moderno do yoga, no qual o amante e o amado são geralmente fundidos em alguma abstração mística. Em um sentido muito real, bhakti requer que seus praticantes dispensem formas superficiais de união.

Além disso, a palavra bhakti, enquanto comumente entendida como “devoção”, ou, como Prabhupada a traduz, “serviço devocional”, originalmente vem da raiz verbal ‘bhaj’ (“dividir, distribuir, colocar ou repartir a”). Pense sobre isso: Enquanto yoga se refere a união, bhakti se refere ao fenômeno diametricalmente oposto: divisão, separação. Como o Monier Williams Sanskrit-English Dictionary nos diz, bhakti se refere primariamente a “distribuição, partilha, ou separação.”

Por que isso? Porque para haver devoção ou amor, deve haver separação*. É por isso que “bhaja” passou a significar “adoração”: Se há divisão, há pelo menos “dois”, e quando há dois, a adoração é possível. Uma entidade unitária não adora a si mesma, exceto em casos extremos de narcisismo. Citando um famoso bhakta, “Eu não quero ser açúcar, eu quero saborear o açúcar”. O açúcar, de fato, não pode saborear a si mesmo.

A unicidade faz com que a relação evapore. Nós podemos falar poeticamente, ou romanticamente sobre a união de amantes, mas, no fim, para os amantes amarem, eles devem ser dois, não um. A assim chamada “unicidade”, nesse contexto é meramente um sentimento de completa harmonia, de unidade em propósito, união em sensibilidade. É uma conexão (leia-se: yoga) que dissolve todas as diferenças. Mas não é unicidade ontológica, e é a “duplicidade” que facilita o amor.

Assim, enquanto as palavras bhakti e yoga podem significar coisas inteiramente opostas, elas estão visando ao mesmo objetivo: proximidade ou intimidade com Deus. E não apenas uma proximidade ordinária, mas uma proximidade tão completa e abrangente que alguém poderia chamar de um tipo de unicidade.

Para atingir esse estado espiritual exaltado, os praticantes do convencional sistema de oito ramos do yoga (Ashtanga-yoga) frequentemente pensam em termos de subir a “escada do yoga”, começando com pranayama (técnicas de respiração) e asana (posturas físicas). Tais práticas constituem os primeiros dois degraus da escada, comumente conhecida como Hatha-yoga. Isto ajuda o indivíduo a adquirir maestria sobre o corpo, de modo que possa então fixar a mente na meditação em um único ponto. Depois disso, os próximos dois degraus são yama (“restrições”) e niyama (“observâncias”), referindo-se a certas regras e regulações que situam a pessoa no modo da bondade. Isso leva aos quatro degraus superiores nos quais se aprende retração dos sentidos, concentração, meditação e samadhi (absorção total no Supremo).

Os textos antigos do yoga nos dizem que o degrau mais alto da escada é uma junção de bhakti e yoga. Este é chamado Bhakti-yoga, e, quando propriamente executado, é como um elevador levando rapidamente ao ponto mais elevado da escada do yoga. Isto está claramente exposto no texto de yoga mais importante e mais antigo, o Bhagavad-gita. De fato, o Gita aceita todas as formas tradicionais de yoga como legítimas, afirmando que todas elas focam na ligação ou união com o Supremo. Porém, o Gita também cria uma hierarquia, indicando uma escada própria do yoga: Primeiro vem o estudo, o entendimento e a meditação (Dhyana-yoga). Estes levam a uma contemplação profunda da filosofia (Jñana-yoga) e, eventualmente, sabedoria que culmina em renúncia (Sannyasa-yoga). A renúncia leva ao uso apropriado da inteligência (Buddhi-yoga) e então à ação apropriada (Karma-yoga). E tudo isso, no fim, leva a Bhakti-yoga.

Os ensinamentos do Gita apontam para um complexo desenvolvimento interno, começando com o entendimento da natureza temporária do mundo material e como a dualidade afeta nossa vida diária. Percebendo que o mundo da matéria deixará de existir e que o nascimento rapidamente leva à morte, o aspirante a yogi começa a praticar renúncia externa, e gradualmente renúncia interna, o que, em última análise, inclui desistir do desejo pelos frutos do próprio trabalho (karma-phala-tyaga) e, eventualmente, executar o próprio trabalho como uma oferenda a Deus (bhagavad-artha-karma). Este método de ação desapegada leva à “perfeição da inação” (naishkarmya-siddhi), ou liberdade da escravidão do trabalho. A pessoa se torna livre de tal escravidão porque aprende a trabalhar como um “agente”, ao invés de trabalhar como um “desfrutador” – aprende a trabalhar para Deus, em Seu benefício. Este é o ensinamento essencial do Gita, e em suas páginas Krishna leva Arjuna (e cada um de nós) através de cada degrau deste processo do yoga.

Significativamente, o Sexto Capítulo inteiro do Gita nos leva além do yoga convencional, o qual Arjuna descreve como imprático e “muito difícil de executar”. Ao invés disso, ele aconselha a reconexão com Deus (Krishna) em Bhakti-yoga, um método descrito como a culminação de todo o resto. De acordo com Krishna, Arjuna é o melhor dos yogis porque ele tem devoção ao Supremo. No fim do Sexto Capítulo, Krishna diz a Seu devoto diretamente, “De todos os yogis, aquele que sempre permanece em Mim com grande fé, Me adorando em serviço amoroso transcendental, é o mais próximo de Mim em yoga, é o maior de todos”.

Adendo: Ambos, yoga e bhakti – e certamente Bhakti-yoga – se espalharam pelo mundo e são agora populares entre os buscadores da ciência espiritual. No entanto, nós vivemos em Kali-yuga, a era da disputa e da hipocrisia. Isso significa que, mesmo que várias tecnologias espirituais possam se espalhar por muito longe, elas serão acompanhadas por equívocos e inexatidão.

Consequentemente, é fácil ser enganado, e muitas formas de yoga e bhakti são de fato ensinadas por charlatões ou pessoas com uma agenda diferente da evolução espiritual. O Brahma-vaivarta Purana ilumina a degradada condição das pessoas nesta era: ataḥ kalau tapo-yoga-vidyā-yajñādikāḥ kriyāḥ sāńgā bhavanti na kṛtāḥ kuśalair api dehibhiḥ "Então, na era de Kali, as práticas de austeridade, yoga, meditação, murti seva, sacrifício e assim por diante, junto com suas várias técnicas acessórias, não são executadas propriamente, mesmo pela mais hábil das almas corporificadas.” (Este verso é citado por Srila Jiva Goswami, sábio do Bhakti-yoga do século XVI, em seu Bhakti sandarbha, Anuccheda 270.)

As escrituras nos aconselham a evitar tal inexatidão e decepção, encontrando um professor autorrealizado em uma linhagem estabelecida, das quais há quatro: Sri, Brahma, Rudra e Kumara Sampradayas. Estas tradições têm muitas linhagens e ramificações e, com um pouco de estudo, se pode encontrar um mestre espiritual fidedigno. Isto permitirá que o indivíduo faça rápido progresso.

De fato, uma vez propriamente situado, o progresso vem facilmente. Como diz o Srimad Bhagavatam (12.3.51), "Meu querido Rei, apesar de Kali-yuga ser um oceano de falhas, há ainda uma boa qualidade sobre esta era: Simplesmente por fazer kirtan, alguém pode se tornar livre da escravidão material e ser promovido ao reino transcendental.” E além disso (12.3.52): “Qualquer resultado que era obtido em Satya-yuga por meditação e yoga, em Treta-yuga pela execução de sacrifícios, e em Dvapara-yuga por servir os pés de lótus do Senhor, pode ser obtido em Kali-yuga simplesmente por Hare Krishna kirtan”.

Então, a prática central do Bhakti-yoga é cantar o santo nome do Senhor. As dificuldades associadas com o processo de yoga podem ser deixadas de lado em favor da simplicidade de cantar sob a guia de um mestre que tem realizado o santo nome. Até uma criança pode fazê-lo. Para começar, se necessita abrir a boca e cantar com sinceridade de coração.

FIM

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*De fato, a “origem” do eterno fenômeno conhecido como bhakti pode ser visto na inicial “separação” de Radha e Krishna – A Suprema Verdade manifesta em duas formas eternas, Divindade Feminina e Masculina, respectivamente. Como é afirmado no Caitanya-caritamrta (Adi 4.56): radha-krishna eka atma, dui deha dhari' anyonye vilase rasa asvadana kari' ("Radha e Krishna são um e o mesmo, mas Eles assumiram dois corpos. Assim, eles desfrutam, um ao outro, de suas essências, experimentando as trocas do amor.”) Isso significa que a verdade Absoluta se divide para desfrutar da relação (rasa), que é a mais elevada forma de yoga.

Além disso, na teologia Gaudiya Vaishnava, a ideia de Vipralambha-bhava ou Viraha-bhakti, que é “amor em separação”, ressoa com o bhakti da forma como nós o definimos neste artigo: se alguém é separado de Deus, vai sentir Sua falta, o que aumentará seu amor. Por esta razão, Viraha-bhakti é considerado o zênite da troca amorosa com Krishna. É Viraha-bhakti, de fato, que nutre Sambhoga, ou “união com Deus”, um conceito mais comparável ao yoga como é definido neste artigo. Ambos são perfeitos, mas em separação há uma saudade intensa que é naturalmente ausente na união, tornando o amor mais completamente desenvolvido.

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Bio:

Steven J. Rosen (Satyaraja Dasa) é um discípulo de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada e autor de cerca de 30 livros nas áreas de filosofia, religião, espiritualidade e música. Ele é um editor associado da revista De Volta ao Supremo, da ISKCON, assim como o fundador editor do Journal of Vaishnava Studies.